Faixa etária 6 a 8 anos.

Theo, um menino de sete anos com cabelos castanhos sempre despenteados e um sorriso que não cabia no rosto, vivia em um mundo de bolas. Não qualquer tipo de bola, mas sim a sua bola de futebol, branca e listrada, que era seu maior tesouro. Todas as tardes, no quintal seguro e gramado de sua casa, ele chutava a bola contra a parede, imaginando golos espetaculares em finais de campeonato. O mundo de Theo era simples, divertido e macio, exatamente como a sua bola. Ele ouvia os garotos mais velhos da vizinhança falarem sobre a “Pedra Redonda”, uma lendária esfera de pedra no topo do Morro do Sol, que diziam ser impossível de alcançar. Diziam que o caminho era cheio de espinhos e pedras afiadas, e que ninguém jamais havia conseguido tocar naquela bola de pedra. Theo apenas sorria, continuando a chutar sua bola macia. Afinal, para que serviria uma bola de pedra, se não podia chutá-la?

Um dia, após ouvir mais uma vez os garotos maiores zombarem de quem tentasse subir o morro, algo mudou dentro de Theo. Ele olhou para sua bola de futebol, que parou a seus pés, e depois na direção do Morro do Sol, que se erguia imponente ao longe. Ele queria continuar brincando, porém a ideia da Pedra Redonda não saía de sua cabeça. Eles diziam que era impossível. A palavra “impossível” soou como um desafio direto para ele. Se ele conseguisse tocar na Pedra Redonda, ele não seria apenas o Theo do quintal; ele seria uma lenda, o menino que conquistou o impossível. Com a respiração ofegante de decisão, ele guardou sua bola de futebol cuidadosamente no galpão, deu um beijo de despedida nela e, sem dizer nada para seus pais, caminhou na direção da base do morro. Seu objetivo estava claro: chegar ao topo e tocar na lendária bola de pedra.

O início da trilha não era tão ruim. Era apenas terra batida e algumas pedras pequenas. Theo, com seu tênis de cano alto, sentia-se confiante. Contudo, conforme ele subia, o caminho se transformava. A terra deu lugar a cascalho solso e pedras pontiagudas. Seus tênis, ótimos para a grama, começaram a escorregar. Um espinho de mandacaru rasgou sua calça e arranhou sua perna, fazendo-o gritar de dor e surpresa. Ele parou, respirando fundo. O caminho era mais íngreme e perigoso do que ele imaginava. Entretanto, a imagem dos garotos mais velhos rindo dele o impulsionou. Ele teve uma ideia péssima: “Se eu tirar os tênis, consigo sentir melhor as pedras e não escorrego!”, pensou. Ele descalçou os sapatos e os amarrou no cinto. A princípio, a sensação de liberdade foi boa. Porém, após alguns passos, as pedras afiadas começaram a machucar a sola de seus pés. Cada passo era uma pequena agulhada.

Já havia subido metade do morro. Seus pés doíam muito. Ele olhou para baixo e viu o telhado de sua casa, tão pequena e segura. A tentação de desistir era enorme. Ele poderia voltar, colocar um band-ide no arranhão da perna e voltar a chutar sua bola macia. No entanto, ele ergueu a cabeça e viu que o topo estava perto. Conseguia avistar o contorno arredondado da Pedra Redonda brilhando sob o sol. Uma lágrima de dor e frustração escorreu por seu rosto. Ele estava em um dilema: a dor imediata em seus pés ou a satisfação futura de alcançar seu objetivo? Ele pensou em como seria contar a todos que havia desistido por causa de um pouquinho de dor. Com os lábios franzidos em determinação, ele tomou sua decisão. Ele não ia voltar. Ele iria até o fim, não importava o quanto custasse.

Os últimos metros foram uma tortura. A trilha era quase vertical, cheia de lascas de rocha que pareciam dentes afiados. Theo chorava em silêncio, a dor em seus pés agora era uma queimadura constante. Ele usava as mãos para se agarrar nas raízes e nas pedras, arrastando o corpo para cima. Seus pés estavam cortados, sangrando e cobertos de poeira. Ele mal conseguia sentir os dedos. Finalmente, com um último esforço que pareceu drenar todas as suas forças, ele rolou sobre a última crista e chegou ao topo. Lá, no centro de um platô plano, estava ela. A Pedra Redonda. Era maior e mais bonita do que ele imaginava, lisa e perfeita, como se tivesse sido esculpida por mãos divinas. Theo engatinhou até ela, ignorando a dor. Ele tocou a pedra! Uma vitória! Todavia, ao olhar para seus pés machucados e sangrando, a vitória de repente pareceu vazia. Ele havia conseguido, mas a um custo que ele nunca havia imaginado.

A descida foi ainda mais difícil. Theo não conseguia mais pisar. Ele sentou e deslizou pelas pedras, rasgando ainda mais suas roupas e pele. Quando finalmente chegou em casa, sua mãe, que já o procurava preocupada, soltou um grito ao vê-lo. Entre lágrimas, Theo contou tudo. Sua mãe, em vez de brigar, limpou cada um de seus ferimentos com cuidado e gentileza, enquanto seu pai preparava um banho morno para ele. Sentado na cama, com os pés enfaixados como se fossem pequenos múmias, Theo olhava para sua bola de futebol no canto do quarto. Ele havia conseguido. Contudo, ao olhar para seus pés machucados, ele entendeu a lição. Ter um objetivo e ser persistente era bom, todavia, era mais importante ser sábio. Ele deveria ter preparado melhor, levado o calçado certo, e talvez até mesmo pedido ajuda. A verdadeira força não estava em tocar na pedra a qualquer custo, mas em entender seus limites e agir com inteligência. Theo aprendeu que as maiores vitórias não são aquelas que nos deixam machucados, mas as que conquistamos com preparo, coragem e sabedoria. No dia seguinte, ele ainda não podia andar, mas já estava planejando sua próxima aventura: desta vez, com os tênis certos e um bom mapa na mão.

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