O Coral da Fazenda Barulhenta: Uma História Infantil sobre Trabalho em Equipe, Amizade e Respeito, com animais divertidos que aprendem a ouvir uns aos outros e a cantar juntos. Faixa etária: 5 a 8 anos.
Na Fazenda Alegria, o dia começava antes mesmo de o sol pintar o céu de laranja. O galo Genésio cantava — ou melhor, gritava — lá do alto do telhado: — Cocoricóóó! Levanta, mundo! As vacas respondiam com mugidos compridos, os porcos faziam “oinc, oinc” dentro da lama, e as galinhas corriam pelo terreiro, cacarejando como se procurassem uma receita de bolo de fubá. No meio daquela festa de sons vivia Nina, uma cabritinha branca, com manchas castanhas nas orelhas e uma vontade enorme de cantar.
Nina gostava de escutar tudo. Ela ouvia o “toc-toc” dos cascos de Seu Antero, o vento passando pelas folhas do milho e até o barulhinho da chaleira quando Dona Benta preparava café. Para Nina, cada som parecia ter um jeito próprio, como as pessoas. O mugido de Mimosa era macio, como uma canção de ninar; o grunhido de Tobias parecia um tambor; e o canto de Genésio, bem, lembrava uma buzina um pouco desafinada. Mesmo assim, Nina admirava o galo, porque ele nunca tinha vergonha de usar a própria voz.

Certa manhã, Seu Antero contou uma novidade enquanto espalhava milho pelo terreiro: — No domingo teremos a Festa da Colheita! O melhor grupo da fazenda vai ganhar uma cesta enorme de frutas, queijo e bolo de milho. Os animais ficaram animados, e Nina sentiu o coração dar pulinhos. Talvez aquela fosse a chance de formar um coral de verdade, com todos cantando juntos. Ela subiu em um caixote e anunciou: — Podemos fazer uma música sobre a fazenda! Eu começo, Mimosa faz o refrão, Tobias marca o ritmo e Genésio pode cantar um pouquinho mais baixo.
Genésio estufou o peito, muito orgulhoso: — Mais baixo? Eu tenho a voz mais forte daqui! — Justamente esse é o problema — murmurou a galinha Jurema, escondendo a cabeça debaixo da asa. Todos tentaram cantar ao mesmo tempo, cada um do seu jeito. Genésio soltou um “cocoricó” bem agudo, Mimosa mugiu bem grave, os patos fizeram “quá-quá” e Tobias bateu os pés na madeira.
O resultado foi um barulho tão misturado que até o cachorro Pingo saiu correndo atrás do próprio rabo. Nina cobriu as orelhas, mas não desistiu: — A gente só precisa aprender a ouvir uns aos outros. É como numa roda de ciranda: cada um entra na hora certa.
No dia seguinte, Nina organizou o primeiro ensaio perto do velho moinho. Ela desenhou marcas no chão com um graveto e separou os animais em grupos. As vacas fariam os sons compridos, as galinhas fariam sons rápidos, os porcos cuidariam do ritmo e os patos entrariam no final. Genésio ficaria encarregado de anunciar o começo. Parecia simples, mas, logo no primeiro minuto, o galo cantou tão alto que as folhas do mamoeiro tremeram.

Mimosa se assustou, Tobias deixou cair uma lata e Jurema voou para cima da cerca. — Desculpa — falou Genésio, abaixando a crista. — Eu me empolgo. — Eu também me empolgo — disse Nina. — Mas cantar junto não é uma competição para ver quem faz mais barulho. É deixar espaço para o som do amigo aparecer. Genésio fez uma careta, porque ainda não gostava muito daquela ideia. Ele achava que, se não cantasse bem alto, ninguém perceberia que estava ali. Nina percebeu como ele estava se sentindo e, em vez de brigar, pediu que todos contassem uma coisa boa sobre a própria voz.
Mimosa disse que seu mugido era calmo. Tobias explicou que conseguia fazer ritmos diferentes batendo os cascos, ora depressa, ora devagar. Jurema contou que seu cacarejo combinava com os momentos alegres, e os patos inventaram uma sequência engraçada de “quá-quá-quá”. Genésio ficou quieto por alguns instantes. Depois, contou: — Eu canto forte porque tenho medo de ninguém me escutar. Nina se aproximou e respondeu: — A sua voz é importante, Genésio. Você só não precisa ocupar o espaço de todas as outras vozes.
Eles recomeçaram, desta vez com pequenas pausas. Primeiro, Tobias marcou três batidas: tum, tum, tum. Depois, as galinhas responderam: có, có, có. Mimosa entrou com uma nota comprida, e os patos fecharam a frase. Genésio esperou, esperou de verdade, embora seus pés se mexessem de ansiedade. Quando chegou sua vez, cantou um “cocoricó” firme, mas mais curto. Todos sorriram, porque aquele pequeno pedaço de música já soava muito melhor do que a confusão do dia anterior.
Os ensaios continuaram durante a semana. Às vezes, um pato entrava cedo demais; outras vezes, Tobias esquecia o ritmo e começava a dançar. Nina também errava, tropeçando no próprio graveto e caindo sentada na palha. — Ai, que mico! — disse ela, rindo. Ninguém precisava ser perfeito, e isso deixou o grupo mais tranquilo. Entre uma tentativa e outra, os animais compartilhavam broas de milho, fatias de melancia e histórias do terreiro. Aos poucos, aprenderam que escutar também era uma forma de cuidar. E o coral começou a nascer, nota por nota.

Na sexta-feira à tarde, quando a música já estava quase pronta, o céu ficou escuro de repente. Nuvens pesadas cobriram o sol, e um vento forte levantou palha, folhas e até o chapéu de Seu Antero. — Todo mundo para o celeiro! — chamou Pingo. Os animais correram para um lugar seguro, mas um trovão fez a ponte de madeira sobre o riacho se partir ao meio. Do outro lado da água estava um pequeno grupo de cordeiros que pastava no campo. Entre eles estava Nino, um cordeirinho que ainda não conhecia o caminho de volta.
Nina olhou para a ponte quebrada e sentiu um friozinho na barriga. A Festa da Colheita seria no dia seguinte, e o coral ainda precisava ensaiar. Além disso, não era seguro atravessar o riacho enquanto a chuva estava forte. — Vamos esperar a chuva diminuir — disse Mimosa, preocupada. Então Nino apareceu na margem oposta, tremendo e chamando pela mãe: — Mééé! Eu não consigo voltar! — Se esperarmos muito, ele pode ficar ainda mais perdido — respondeu Nina. Ela olhou para a água e depois para os amigos. Era hora de escolher: cuidar apenas da apresentação ou ajudar um amigo que precisava deles?
Genésio foi o primeiro a se aproximar: — Minha voz chega até o campo. Posso chamar Nino e mostrar o caminho. — E nós podemos cantar para ele não ficar com medo — sugeriu Jurema. Tobias encontrou uma corda grossa no celeiro, enquanto Pingo correu até Seu Antero para pedir ajuda. Cada animal fez a sua parte. Mimosa ficou perto da margem, chamando Nino com um mugido suave; os patos procuraram um trecho mais raso; e Nina, presa com segurança à corda, avançou devagar por algumas pedras escorregadias.
A chuva batia forte, ploc, ploc, ploc, e o riacho fazia um som alto. Nina quase perdeu o equilíbrio quando uma pedra se mexeu sob sua pata. — Nina, volte! — chamou Mimosa. Por um instante, a cabritinha pensou em parar, e ninguém ficaria bravo se ela voltasse. Mas então ouviu Genésio cantando do outro lado: — Cocoricó… você consegue ouvir meu chamado! Nino respondeu com um “mééé” baixinho. Aquele som pequeno atravessou a chuva e deu coragem a Nina.

Com a ajuda de Tobias, que segurava a corda com firmeza, Nina alcançou o cordeirinho. — Vamos devagar, Nino. Um passo, depois outro — disse ela. Os dois voltaram pela trilha de pedras enquanto o coral cantava uma melodia simples, feita de vozes e pausas. Não era a canção da Festa, mas era uma música inventada na hora, um pouco diferente e cheia de carinho. Quando chegaram à margem segura, a mãe de Nino o abraçou. Nina estava molhada, Genésio estava cansado de tanto chamar, e todos precisavam descansar. Mesmo assim, ninguém queria trocar aquele momento por uma cesta de bolo.
Na manhã de domingo, a fazenda estava limpa e enfeitada com bandeirinhas coloridas. O riacho ainda corria depressa, mas o céu estava azul. Os animais se reuniram diante do palco de madeira que Seu Antero havia construído. Nina segurava uma folha com a letra da música, embora já soubesse cada palavra. — E se a gente errar? — perguntou Tobias. — A gente respira, escuta e continua — respondeu Nina. Genésio ajeitou as penas e completou: — E, se for preciso, eu canto mais baixo. Todos riram, porque aquilo parecia uma grande promessa.
Quando o apresentador anunciou “O Coral da Fazenda Barulhenta”, o público ficou curioso. A música começou com três batidas de Tobias: tum, tum, tum. As galinhas responderam ligeiro, os porcos acompanharam com os cascos, e Mimosa entrou com uma nota macia que parecia abraçar o terreiro. Os patos fizeram “quá-quá-quá” na hora certa. Então Genésio cantou seu refrão, forte o bastante para ser ouvido, mas cuidadoso o bastante para deixar os outros brilharem. A fazenda inteira pareceu respirar no mesmo ritmo.
No meio da apresentação, uma criança da plateia começou a bater palmas fora do ritmo. Pingo latiu, Tobias se confundiu, e Nina esqueceu a palavra seguinte. Por um instante, o coral quase parou. Porém, Genésio olhou para ela e cantou a primeira sílaba do refrão. Nina se lembrou da canção inventada na chuva e retomou a melodia. Um por um, os outros animais voltaram. A música continuou, como quando a gente tropeça em uma brincadeira e entra na roda outra vez.

Quando terminaram, houve um silêncio bem curtinho. Depois, o público aplaudiu e bateu os pés no chão. Seu Antero entregou ao grupo uma cesta enorme, cheia de frutas, queijo e bolo de milho. — Vocês ganharam porque cantaram muito bem — disse ele. — Mas, principalmente, porque aprenderam a ouvir. Nina dividiu o prêmio com todos, inclusive com Nino, que recebeu a maior fatia de melancia. Naquela noite, a Fazenda Alegria ficou quieta por alguns minutos, o que já era quase um milagre.
Genésio olhou para o céu estrelado e perguntou: — Será que minha voz ainda é barulhenta? — É — respondeu Nina, sorrindo. — Só que agora ela sabe quando entrar. O galo pensou um pouco e fez um cocoricó pequeno, delicado, quase como uma pergunta. As vacas responderam, os porcos marcaram o ritmo e os patos completaram a frase. A fazenda voltou a cantar. E todos entenderam uma coisa importante: não precisamos deixar de ser quem somos para fazer parte de um grupo; precisamos aprender a respeitar o espaço, a força e a beleza de cada voz.
