Faixa Etária: 4 a 8 anos

Na Floresta Cintilante, onde os rios cantavam canções de borbulhas e as flores tinham cores de arco-íris, vivia um raposinho chamado Gael. Com seis anos, uma pelagem laranja vibrante, bochechas brancas e um tufo de cabelo que nunca ficava no lugar, Gael era a própria definição de alegria durante o dia. Ele adorava correr pelos campos de girassóis, perseguir borboletas azuis e, acima de tudo, brincar com sua melhor amiga, Sia, uma esquilozinha de olhos brilhantes e um rabo fofinho que parecia uma pluma vermelha. Juntos, eles construíram castelos de folhas, correram até o topo da Colina do Sol e compartilharam os morangos mais doces. Contudo, havia uma coisa que estragava a perfeição dos dias de Gael: a noite. Assim que o sol começava a se pintar de laranja e roxo no horizonte, um frio percorria o espinho de Gael. O mundo que ele amava se transformava. As árvores amigas se tornavam silhuetas assustadoras, os sussurros do vento soavam como segredos misteriosos e, o pior de tudo, a escuridão parecia um monstro gigante pronto para engolir tudo. Sempre, sem exceção, Gael se despedia de Sia com um aperto de mão apressado e corria para a segurança e calor da toca de sua família, antes que a primeira estrela ousasse aparecer no céu.

Numa tarde, enquanto o sol se despedia em um espetáculo de dourado e rosa, Sia entregou a Gael um presente embrulhado numa folha de bananeira. Era uma Pedra do Sol, uma pedrinha lisa e amarela que ela havia encontrado perto da Cachoeira Cintilante. “Ela brilha um pouquinho quando está muito escuro”, disse Sia, com um sorriso. “Para você nunca se sentir sozinho”. Gael ficou tão emocionado que apertou a pedra contra o peito. Ele a guardou cuidadosamente no bolsinho de sua calça jeans. Entretanto, na sua pressa de chegar em casa antes que a escuridão total caísse, Gael tropeçou numa raiz exposta. Bang! Ele caiu rastejando e a Pedra do Sol voou de seu bolsinho, rolando para dentro de uma moita de folhas escuras. O coração de Gael gelou. Ele olhou para o céu, já tomado por um manto de azul escuro pontilhado de estrelas. A floresta estava silenciosa e assustadora. Sua primeira vontade foi correr, correr o mais rápido que pudesse para a toca e se esconder. Porém, a imagem do sorriso de Sia e o presente que ela lhe deu o paralisaram. Ele não podia perder a Pedra do Sol. Era um símbolo da amizade deles. Pela primeira vez na vida, Gael teria que entrar na floresta à noite. Seu objetivo era claro: encontrar a pedra.

Com o coração batendo forte, Gael deu o primeiro passo para dentro das sombras. O caminho de volta até onde ele havia caído era o mesmo, porém parecia completamente diferente. Os galhos das árvores, que antes eram ótimos para escalar, agora pareciam garros longos e finos prontos para pegá-lo. O vento uivava baixinho, e Gael imaginava que eram lobos sussurrando seu nome. Ele avançou devagar, com as patas tremendo. Seu primeiro grande desafio foi atravessar a Ponte de Troncos, um velho tronco caído sobre o Riacho das Risadinhas. Durante o dia, era uma diversão. À noite, a água escura embaixo refletia a lua como um olho gigante e assustador, e o som da correnteza parecia uma gargalhada. Gael engoliu em seco. Ele pensou em desistir, todavia a imagem da Pedra do Sol o fez respirar fundo. Ele colocou uma patinha na frente da outra, olhando apenas para a frente, e conseguiu atravessar. O próximo desafio foi o Campo dos Cogumelos. De dia, eram fofos e coloridos. De noite, alguns brilhavam com uma luz verde e fantasmagórica, criando formas estranhas no chão. Gael pulava a cada som de folha que se quebrava, certo de que era uma criatura se escondendo. Ele estava com muito medo, no entanto continuava, repetindo para si mesmo: “Pense na Sia. Pense na Sia”.

Finalmente, Gael chegou perto do local onde havia caído. Ele podia ver a moita de folhas escuras a poucos metros de distância. Contudo, algo o fez parar morto em seus tracks. Diante dele, entre a moita e ele, estava uma forma enorme e escura. Era o Monstro das Sombras que ele tanto temia! Tinha um corpo grande e irregular, com dois chifres pontudos e um braço longo que se movia lentamente para frente e para trás. Gael sentiu as pernas ficarem moles. O frio em seu espinho agora era um gelo intenso. Ele poderia correr. Poderia voltar para casa, admitir a derrota e dizer a Sia que havia perdido o presente. Ela entenderia, certo? Ele quase se virou. Todavia, ele olhou para a moita de folhas, onde sua preciosidade estava. Ele pensou na confiança que Sia tinha nele ao dar a pedra. Ele pensou em como ela sempre o incentivava a ser corajoso. Este era o momento. Ou ele enfrentava o monstro e recuperava a amizade simbolizada naquela pedra, ou ele deixava o medo vencer para sempre. Com um fôlego trêmulo, Gael tomou sua decisão. Ele não ia correr. Ele ia enfrentar seu medo.

Gael se encheu de toda a coragem que conseguiu encontrar. Ele pensou em Sia, em seu sorriso e em sua força. “E-ei, seu monstro grande e feio!”, gaguejou ele, com a voz trêmula, mas alta. “Saia da frente do meu caminho!”. O monstro não respondeu. Apenas continuou a se mover lentamente. Gael deu um passo à frente, o coração na garganta. “Eu não tenho medo de você!”, mentiu ele, mas tentando acreditar nas próprias palavras. Ele deu outro passo, e outro, até que ficou bem perto da criatura escura. Então, ele percebeu. O “braço” que se movia era apenas um galho balançando na brisa. Os “chifres pontudos” eram duas folhas de palmeira. E o “corpo grande e irregular” era… apenas um arbusto grande, cuja sombra, à luz da lua, parecia um monstro assustador. O medo desapareceu, substituído por um sentimento de alívio e um pouco de vergonha. O monstro nunca existiu. Ele era apenas uma sombra, uma ilusão criada pela escuridão. Com um suspiro de alívio, Gael correu até a moita de folhas, revirou-as com a pata e lá estava ela: a Pedra do Sol, brilhando com uma luz suave e amarela, como se estivesse esperando por ele.

Com a Pedra do Sol segurada firmemente em sua pata, Gael olhou para a floresta à sua volta. Agora, ele não via mais monstros. Ele via as estrelas cintilando no céu como pequenos diamantes. Ele via os cogumelos brilhando como pequenas lanternas, iluminando o caminho. Ele ouvia o vento não como um uivo, mas como uma canção de ninar suave. A floresta à noite não era assustadora; era apenas diferente, silenciosa e linda. A jornada de volta para casa foi calma e até prazerosa. Ele não correu. Ele caminhou, observando a magia da noite que ele nunca tinha percebido antes. Ao chegar em casa, ele colocou a Pedra do Sol em sua mesinha de cabeceira. Ela brilhava suavemente, um lembrete constante de sua aventura. No dia seguinte, Gael encontrou Sia na Colina do Sol e contou tudo. Ele contou sobre o medo, a queda, a decisão de voltar e o “monstro” que era apenas um arbusto. Sia o ouviu com os olhos brilhantes de orgulho. Naquele dia, Gael aprendeu duas lições muito importantes.
